Assange Arrested

Enquanto o fundador do Wikileaks definha em um presídio de segurança máxima no sul de Londres, uma corte britânica está decidindo sua sorte. O australiano de 48 anos está preso em termos formais pelo crime de fuga, após ter buscado asilo na embaixada equatoriana no Reino Unido em 2012, evitando, assim, sua extradição para a Suécia.

Seu medo àquela época era que os suecos (que têm o histórico de entregar aos EUA os suspeitos desejados por Washington) obrigassem-no a cruzar o Atlântico. Agora que Assange perdeu seu refúgio diplomático, 70 membros do parlamento britânico podem despachá-lo para a Suécia se os procuradores de lá reabrirem o caso que encerraram em 2017. A maior ameaça para sua liberdade é o pedido de extradição do Departamento de Justiça dos EUA, que quer colocá-lo com Chelsea Manning diante de um júri, por hackearem um computador do Estado.

Washington insiste que não pedirá pena de morte para Assange. Se o fizesse, o Reino Unido e outros países europeus não poderiam extraditá-lo. A sentença máxima para o crime de hackeamento é de cinco anos, mas não há garantia alguma de que, uma vez nos EUA, o fundador do Wikileaks não sofra novas acusações baseadas na Lei de Espionagem de 1917 que o ex-presidente Barack Obama usou contra nove indivíduos por supostamente vazarem informações secretas ao público. A sentença para este crime poderia ser morte ou prisão perpétua. Se Assange for engolido pelo sistema judicial dos EUA, ele pode nunca mais ser visto de novo.

Seu destino mais provável seria o “Alcatraz das Montanhas”, também conhecido como a Instalação Penitenciária Administrativa Máxima dos EUA, ou ADMAX, em Florence no Colorado. Entre seus 400 prisioneiros estão Ted Kaczynski, o “Unabomber”; Dzhokhar Tsarnaev, o terrorista da Maratona de Boston; Robert Hanssen, o agente do FBI acusado de ter se tornado espião russo; Terry Nichols, um dos autores do atentado à bomba em Oklahoma. O regime da prisão é tão rude quanto seus habitantes: 23 horas ao dia de confinamento numa cela de concreto com uma janela de dez centímetros de largura, seis inspeções por semana e uma sétima nos fins de semana, uma hora de exercícios numa cela sem teto, jatos de água de 1 minuto para “estimular” e revistas à vontade pelo pessoal da prisão.

Se o Departamento de Justiça de Trump ampliar as acusações para enquadrar Assange na Lei de Espionagem, um jornalista pode passar o resto de sua vida em ADMAX, entre assassinos, traidores e traficantes.

A acusação do Comitê Nacional do Partido Democrata (DNC) dos EUA afirma que ele conspirou com Donald Trump e com a Rússia para hackear e-mails do partido e publicá-los. O DNC alegava que Assange havia revelado seus “segredos comerciais”, uma referência aos métodos também usados para privar Bernie Sanders da candidatura à presidência. Para perseguir um jornalista-editor, o DNC está usando a Lei sobre Organizações Corruptas e Influenciadas, de 1970, concebida para controlar o crime organizado. Se bem-sucedida, a tentativa estabelecerá um precedente que deveria preocupar a imprensa em toda parte.

Os advogados pessoais de Trump insistem que nenhum crime foi cometido e, portanto, não houve conspiração criminosa. Isso não impedirá o Departamento de Justiça, sob comando do procurador-geral nomeado por Trump, de lançar acusações contra Assange, não apenas por supostamente trabalhar com Manning para ter acesso a segredos do governo, mas também para investigar como Assange obteve documentos confidenciais dos Departamentos de Defesa e de Estado, assim como o programa de hackeamento da CIA que o WikiLeaks publicou em 2017, sob nome de Vault 7. O jornal londrino The Guardian, que já colaborou com Assange, acusa-o de se encontrar com o ex-coordenador de campanha Paul Manafort na embaixada. Assange disse: “Nunca me encontrei ou falei com Paul Manafort”. O livro de registros da embaixada, assinado por todos os visitantes, não tem registro de Manafort.

O caminho para a prisão de Belmarsh começou em 2006, quando o WikiLeaks expôs a tentativa de um líder rebelde somali de assassinar funcionários do governo. Em seguida, vieram detalhes dos procedimentos chocantes nas instalações de detenção dos EUA, na Base Naval de Guantánamo, em Cuba. Eles levaram os EUA a fechar o site do WikiLeaks, que foi rapidamente resgatado. Assange expôs, então, as [atividades da Igreja da Cientologia]](https://wikileaks.org/wiki/Category:Scientology) e, em 2010, as transgressões ilegais das forças armadas dos EUA no Afeganistão e Iraque – por meio de documentos em que as partes acusavam a si mesmas.

Colaborava com o WikiLeaks um consórcio dos jornais-líderes pelo mundo: The New York Times, The Guardian, El País e Le Monde. Se Assange violou a lei, estavam todos juntos com ele neste ato. Ao editar milhares de documentos do WikiLeaks para evitar a identificação de fontes sensíveis de “inteligência”, os jornais apresentaram as guerras contra o Afeganistão e o Iraque de maneiras que contrariavam a linha oficial. Uma das revelações mais lembradas é um vídeo militar de uma tripulação de helicóptero norte-americana deleitando-se ao matar a tiros dois jornalistas da Reuters e dez outros civis nas ruas do Iraque. Quando os investigadores dos EUA descobriram que a fonte dos vazamentos era um analista de “inteligência” chamado Bradley Manning, prenderam-no, em maio de 2010. Bradley, um soldado transgênero que tornou-se Chelsea, foi condenado a 35 anos de prisão por espionagem em agosto de 2013. Obama comutou a sentença de Chelsea em janeiro de 2017, mas deixou o caso de Assange aberto.

Entre as revelações seguintes do fundador do WikiLeaks estavam os e-mails do presidente sírio, Bashar al-Assad, sem amigos em Washington. Assange estava se tornando um rock star da liberdade de expressão. Nesta condição, atraiu fãs. Até aí, tudo normal. Então ele foi à Suécia, onde duas mulheres o denunciaram à polícia por má conduta sexual.

A polícia sueca encerrou a investigação e permitiu-lhe deixar o país, mas os procuradores revisaram o caso e demandaram que Assange retornasse à Suécia para uma entrevista. Assange ofereceu-se para ser entrevistado em Londres, onde sentia-se mais seguro de extradição aos EUA que na Suécia. Os suecos, embora nunca tenham acusado Assange por crime algum, pediram extradição. A polícia britânica prendeu-o para que fosse submetido a uma audiência judicial.

Assange foi enviado primeiro para a cadeia e, em seguida, para prisão domiciliar na fazenda de Vaughan Smith. Quando a corte finalmente determinou enviá-lo à Suécia, ele solicitou e recebeu asilo na embaixada do Equador. As condições não eram ideais, mas o presidente equatoriano e o embaixador deram-lhe pleno apoio. Os visitantes entravam e saíam. Nesse período, a Suécia encerrou a investigação sobre as alegações das acusadoras. Isso deixou Assange diante apenas de uma acusação de fuga na Inglaterra, pela qual ele receberia apenas uma leve multa. Contudo, se deixasse a embaixada para reportar-se à corte, ele temia que os EUA desencadeassem seu indiciamento e pedissem sua extradição.

Em 24 de maio de 2017, Lenin Boltaire Moreno Garcés tornou-se presidente do Equador e a vida de Assange mudou. Aliado de Trump, necessitado de empréstimos do FMI, Moreno substituiu o embaixador por um funcionário hostil à presença de Assange na embaixada. Embora o regime anterior tivesse oferecido cidadania ao fundador do WikiLeaks, com base nos cinco anos que ele passara efetivamente em solo legal equatoriano, o novo governo cortou seu acesso a telefone e internet e restringiu o número de visitantes. A equipe da embaixada mudou. Os novos funcionários tornaram-se menos cordiais aos visitantes e eram visivelmente hostis a Assange.

Por fim, Moreno jogou no lixo o princípio do asilo político e disse à polícia britânica para entrar e levar Assange. Os EUA apresentaram o indiciamento que Assange sempre disse estar sendo preparado. Ele agora aguarda para saber se alguma outra vez estará livre de novo, enquanto os jornalistas que publicaram os documentos que vazou continuam trabalhado sem temer processo e, em alguns casos, comemoram os prêmios jornalísticos que ganharam enquanto denunciavam o homem que tornou as premiações possíveis.